Antes de tudo, sou obrigado a esclarecer, pra não abusar da boa vontade do possível leitor desse texto, que o título pretensioso do post é irônico. O que me levou a escrevê-lo foram algumas observações que me ocorreram depois de ler duas impressões bastante diferentes sobre a mesma série de desenhos do artista gaúcho Carlos Asp.

Em anotações em seu blog, Fernando C. Boppré, esclarecendo, já no título, sua condição privilegiada de amigo do artista, utiliza-se do conhecimento que tem da personalidade de Asp e sua ligação com a religião para fazer uma relação/contraponto entre Asp e o barroco, na qual emerge, a partir da leitura das obras da série Campos Relacionais, um discurso religioso.
As obras em questão são círculos de diferentes cores mas de mesmo tamanho, ordenados a uma mesma distância, desenhados em caixas de remédios, chocolate, e outras embalagens desdobráveis. Ao expor essas diferentes peças conectadas cria-se um painel que multiplica círculos de diferentes “pesos”, tamanhos e cores. Para Boppré, Asp ” revela o interior das caixas, o interior das coisas, o interior das pessoas. Espelhamento dos indivíduos, uma metáfora do indivíduo aberto novamente a possibilidade do religare” .
Vi essas peças em exposição na galeria da Fundação Cultural BADESC, em setembro de 2008. Juntamente com a instalação “Poço de Carvão“, a série “Campos Relacionais” formava a mostra individual “Asp sem verniz“. Naquela ocasião, na presença de dois amigos, lembro que os comentários se resumiram do óbvio e pobre “isso eu também sei fazer” ao meu comentário, não menos pobre: “se fossem pintados em telas ao invés de embalagens, tornariam objetos de decoração“.

Daniel Buren, Inside (Centre of Guggenheim), 1971.
Um tempo depois, ao estudar a arte conceitual dos anos 60, me deparei com o trabalho e os escritos de Daniel Buren, francês que ficou mundialmente conhecido como “o cara das listras” por ter pintado, por muitos anos, tiras de 8,7cm espaçadas com a mesma distância. Primeiramente pintando em espaços públicos de Paris de forma subversiva, Duren logo foi convidado a expor no “sistema de arte” parisiense, porém, em sua primeira mostra individual, bloqueou a entrada da galeria com as mesmas tiras que o tornaram objeto de apreciação no círculo artístico dos anos 60. Isso porque suas listras se posicionavam, justamente, contra essa noção tradicional da arte como fruto de uma autoria: qualquer um seria capaz, se lhes fosse ordenado, a pintar tiras de 8,7 centímetros igualmente distribuídas. O que importava era a nova perspectiva que os espaços adquiriam depois daquela intervenção.
Com um pouco mais de boa vontade e com essa “lição” aprendida através de Buren, percebi que os círculos ordenados de Asp eram mais do que apenas círculos ordenados, e o fato de utilizarem como suporte embalagens reutilizadas era mais do que uma tentativa de fugir da alcunha de decorador de ambientes. O ato contínuo que revela uma obsessão por círculos e ordenação, aliados a reutilização das caixas de remédios me levaram a ler nesses “Campos Relacionais” a relação doença-cura.
Pesquisando mais sobre Asp encontrei um ensaio de Victor da Rosa sobre outra exposição, mas falando da mesma série de desenhos. Victor, que não é amigo, ou pelo menos não cita sua amizade com Asp, faz uma leitura totalmente diversa da feita por Fernando Boppré. Para ele, as obras podem ser vistas como gestos a serviço da linguagem ou, em suas palavras: “O gesto se encerra no próprio gesto – em sua força: pulsão de linguagem. Enfim, Asp é um artista que acredita na superfície, no visível e no corpo. Seus desenhos não dependem de um conceito, mas da pulsão de um corpo, uma atividade. O prazer pela forma”. Embora Victor não tenha feito a relação, vê-se aqui um possível reflexo das listras de Buren.
Esse ponto tornou claro, para mim, o quanto duas visões tão diferentes acerca da mesma obra podem ser enriquecedoras e, apesar de revelarem discursos diferentes, estarem ambas corretas. Até mesmo a minha pobre interpretação, que carecia da condição de amigo de Asp; como Boppré, e da erudição e revisão filosófica do Victor, poderia ter sua legitimidade garantida.
Isso porque, na arte contemporânea, a “interpretação” das obras diz muito mais sobre a criatividade de quem as visualiza do que de quem as criou. Em seu hermetismo, sua atitude autoreferencial e muitas vezes antiestética, a produção artística atual parece querer estabelecer um não-diálogo com o “público”. No entanto, como seres simbólicos que somos, e através da leitura dos signos que fazemos a toda hora, sempre tentamos apreender aquilo que vemos não apenas como experiência estética e, sim, de forma racional, que traduzimos em um discurso.
Porém, diferentemente da linguagem escrita que aprendemos através do ABC da escola; a linguagem visual, apesar de seu caráter convencional, não é ensinada. Acabamos por aprender e entender os signos de forma automática, através da vivência, podendo, sem maiores complicações, ir ao banheiro certo ao visualizar uma mancha na porta que representa a silhueta de um homem. Por sua vez, quando a mensagem visual não é tão óbvia, predomina a preguiça intelectual de uma leitura mais avançada. Daí que surgem a frustração de quem vai à uma galeria de arte contemporânea e volta dizendo “isso até eu posso fazer” ou se achando muito ignorante por não ter compreendido nada.